REVOLUÇÃO NA NEUROIMAGEM

Uma nova técnica permite observar o cérebro em ação com muito menos ruído

Publicado originalmente em 9 de setembro de 2026 na Nature Neuroscience, o estudo apresenta o SORDINO, uma nova abordagem de ressonância magnética funcional (fMRI) desenvolvida para superar algumas das limitações mais importantes das técnicas convencionais de neuroimagem.

REVOLUÇÃO NA NEUROIMAGEM observar o cérebro Sordino

Durante décadas, a ressonância magnética funcional transformou a capacidade da ciência de investigar a atividade cerebral. Entretanto, estudar o cérebro enquanto um organismo está acordado, movimentando-se e interagindo com o ambiente continua sendo um grande desafio. Ruído acústico, movimento, interferências eletromagnéticas, distorções do campo magnético e limitações de sensibilidade podem comprometer a qualidade das imagens e, principalmente, alterar o próprio comportamento que os pesquisadores desejam observar.

É nesse cenário que surge o SORDINO.


O que é o SORDINO?

SORDINO é a sigla para Steady-state On-the-Ramp Detection of INduction-decay with Oversampling.

O nome também faz referência ao termo musical sordino, utilizado para indicar o abafamento ou silenciamento de um instrumento.

A escolha não é casual.

Uma das características mais impressionantes da nova técnica é justamente a redução drástica do ruído acústico produzido durante a aquisição das imagens.

O SORDINO foi desenvolvido como uma evolução das técnicas de fMRI baseadas em zero echo time (ZTE). Em vez de utilizar mudanças rápidas e intensas dos gradientes magnéticos, a técnica mantém a amplitude total do gradiente praticamente constante e modifica continuamente sua direção, realizando a aquisição durante essas transições.

O resultado é uma aquisição com menor ruído acústico e menor suscetibilidade a diversos artefatos, mantendo alta sensibilidade para investigar a atividade cerebral.


Por que isso é tão importante?

A fMRI convencional baseada em GRE-EPI é uma das ferramentas mais utilizadas para estudar a função cerebral. Porém, ela apresenta limitações importantes.

Entre elas estão:

  • ruído acústico;
  • interferência eletromagnética;
  • artefatos provocados por movimento;
  • distorções relacionadas à heterogeneidade do campo magnético;
  • limitações de sensibilidade;
  • limitações de especificidade espacial.

Essas limitações tornam particularmente difícil estudar animais acordados.

Em muitos experimentos, os animais precisam passar por períodos prolongados de habituação ao ambiente do scanner. Em outros casos, pesquisadores recorrem à anestesia — o que elimina ou altera justamente muitos dos comportamentos que se deseja investigar.

Com o SORDINO, os pesquisadores demonstraram que é possível realizar mapeamento funcional do cérebro de camundongos acordados e realizando comportamentos com menor interferência desses fatores.


Um cérebro em ação — não apenas em repouso

Essa talvez seja uma das partes mais fascinantes do estudo.

Os pesquisadores utilizaram o SORDINO para acompanhar a atividade cerebral durante comportamentos motores voluntários.

Em um dos experimentos, camundongos realizaram uma tarefa de alcançar e agarrar enquanto sua atividade cerebral era registrada.

A técnica permitiu identificar padrões de atividade em diferentes regiões cerebrais envolvidos nessa ação, incluindo alterações no córtex motor, córtex retrosplenial, tálamo, cerebelo e áreas sensoriais.

Isso representa uma mudança importante de perspectiva.

Em vez de perguntar apenas:

“Quais regiões do cérebro estão conectadas?”

torna-se possível investigar:

“Como redes inteiras do cérebro trabalham juntas enquanto um comportamento acontece?”

Essa diferença é fundamental para a Neurociência moderna.


E existe algo ainda mais surpreendente

Os pesquisadores foram além do estudo de um único animal.

O SORDINO também permitiu realizar imagens simultâneas dos cérebros de dois camundongos durante uma interação social.

Essa abordagem revelou sinais de acoplamento entre os cérebros — isto é, padrões de sincronização entre redes cerebrais dos animais envolvidos na interação.

Isso abre uma perspectiva particularmente interessante para a chamada Neurociência Social.

Com técnicas capazes de observar simultaneamente diferentes cérebros enquanto indivíduos interagem, torna-se possível investigar questões que anteriormente eram extremamente difíceis de estudar.

Como os cérebros respondem uns aos outros?

Quais redes são recrutadas durante uma interação social?

Como o comportamento de um indivíduo modifica a atividade cerebral de outro?

E, futuramente, como esses mecanismos poderão ser relacionados a condições neurológicas e psiquiátricas que envolvem alterações na interação social?


O SORDINO também pode conversar com outras tecnologias

Outro aspecto importante do trabalho é a compatibilidade do SORDINO com experimentos multimodais.

Os pesquisadores demonstraram compatibilidade com técnicas que permitem investigar a atividade neural em diferentes níveis, incluindo eletrofisiologia, eletroquímica e imageamento de cálcio em resolução celular.

Isso é particularmente relevante porque uma das grandes questões da Neurociência contemporânea é justamente conectar diferentes níveis de análise:

moléculas → células → circuitos → redes → comportamento.

Uma técnica de neuroimagem que possa ser integrada a outras formas de registro aumenta significativamente a capacidade de estabelecer relações entre esses níveis.


Uma nova forma de observar a conectividade cerebral

O estudo também demonstrou a capacidade do SORDINO de realizar mapeamento de atividade cerebral e conectividade funcional em todo o cérebro de animais acordados.

A conectividade funcional permite estudar como diferentes regiões apresentam padrões coordenados de atividade.

Tradicionalmente, porém, estudar essas redes em animais acordados envolve um compromisso difícil entre qualidade da imagem, movimento, estresse e comportamento.

Segundo os pesquisadores, a redução do ruído e das vibrações permitida pelo SORDINO também reduziu o tempo necessário para a habituação dos animais em determinados experimentos de conectividade funcional: de processos que podem levar cerca de um mês para aproximadamente cinco dias no protocolo apresentado.


Não é simplesmente uma “fMRI mais silenciosa”

É importante evitar uma interpretação simplista.

O SORDINO não é apenas uma versão silenciosa da fMRI convencional.

Os pesquisadores identificaram mecanismos de contraste diferentes do BOLD tradicional, relacionados a propriedades como oxigenação tecidual, volume sanguíneo cerebral e fluxo sanguíneo cerebral.

Isso significa que a técnica pode fornecer informações complementares às obtidas pelas abordagens convencionais.

Em outras palavras, o avanço não está somente em reduzir o ruído.

Está também em explorar uma maneira diferente de medir e interpretar a função cerebral.


E o que isso pode significar para o futuro?

Os resultados ainda estão no campo pré-clínico.

Os experimentos apresentados foram realizados em camundongos, utilizando um sistema de MRI de 9,4 tesla. Portanto, seria incorreto afirmar que o SORDINO já está pronto para substituir a fMRI utilizada em seres humanos.

Os próprios autores apontam que o trabalho estabelece uma base para futuras aplicações e possíveis avanços em direção a sistemas de MRI humanos.

Mas o potencial é significativo.

A aquisição silenciosa e mais resistente a artefatos pode ser particularmente interessante para situações nas quais o ruído, o movimento ou a heterogeneidade do campo magnético representam obstáculos importantes.

Os autores também apontam possíveis aplicações futuras em áreas como MRI dinâmica com contraste e MRI molecular, além da neuroimagem funcional.


Uma nova janela para estudar o cérebro

A importância do SORDINO talvez possa ser resumida em uma ideia simples:

Quanto mais próximo conseguimos chegar do comportamento natural de um organismo, mais próxima a Neurociência pode chegar de compreender como o cérebro realmente funciona.

Durante muito tempo, estudar o cérebro significou observar estruturas, registrar sinais ou analisar respostas em condições cuidadosamente controladas.

O próximo passo é compreender como redes cerebrais inteiras funcionam em conjunto enquanto um organismo percebe, decide, movimenta-se e interage com outro indivíduo.

O SORDINO não resolve definitivamente esse desafio.

Mas oferece uma nova ferramenta para enfrentá-lo.

E, ao permitir o mapeamento cerebral em animais acordados, durante comportamentos motores e interações sociais, a técnica pode ajudar a aproximar a Neurociência experimental da complexidade do comportamento real.


O que vem a seguir?

A equipe responsável pelo estudo disponibilizou a sequência SORDINO e uma base de dados associada, com o objetivo de facilitar novos estudos e futuros avanços técnicos.

Isso é particularmente relevante.

Uma inovação científica ganha força não apenas quando é desenvolvida, mas quando outros pesquisadores conseguem reproduzi-la, testá-la, aperfeiçoá-la e aplicá-la a novas perguntas.

O verdadeiro impacto do SORDINO, portanto, ainda está por ser determinado.

Mas uma coisa já está clara:

a forma como observamos o cérebro em funcionamento continua evoluindo — e, em 2026, uma das fronteiras mais interessantes dessa evolução acaba de ficar mais silenciosa.


Fonte científica

MacKinnon, M. J. et al. SORDINO: silent, sensitive, specific and artifact-resistant fMRI in awake, behaving mice. Nature Neuroscience, 9 September 2026. O artigo é de acesso aberto.

Ler o artigo original na Nature Neuroscience

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